Os executivos e as eleições
Publicada em 10/06/2010 às 16h01mGUILHERME LACERDA
Recente enquete realizada com executivos de grandes empresas brasileiras indicou maior simpatia pelo candidato de oposição, apesar de grande aprovação ao governo Lula. Por que será que esse grupo tem tal postura?
O aspecto central das manifestações diz respeito ao papel do Estado e à necessidade de aprofundar os cortes de gastos públicos. Não há novidades. Desde os primórdios de nosso processo de urbanização e industrialização as elites e os "bem nascidos" gritavam pelo orçamento equilibrado, e nada os fez mudar, mesmo diante das sucessivas revelações sobre o papel ativo de um Estado regulador para se ter uma verdadeira nação. Foi assim na crise de 29 e foi assim agora, novamente.
No direito privado, que regula o jogo do mercado, "tudo é permitido desde que não seja estritamente proibido". Já no direito público, que define as diretrizes e normas da gestão burocrática, "só pode ser feito o que estiver explicitamente definido como tal" e sempre há divergências quanto às interpretações ao que pode e o que não pode ser feito. Aqui, repousa uma diferença profunda que muda a dinâmica de um e de outro, sempre desconsiderada.
A estruturação de nossas burocracias públicas se deu no pós-guerra e, após o período dos governos militares, procedeu-se a um acelerado fortalecimento das atividades de controle e fiscalização em detrimento daquelas de formulação de projetos. Esta configuração se deu com a formação de ilhas de eficiência em meio a vastas áreas esquecidas e processos deformados. Especificamente nos Executivos não havia projetos, nem sistemas de aferição de desempenho e tão pouco grupos para formular e realizar políticas sociais e regulatórias indispensáveis ao país. As carreiras de gestão haviam sido substituídas por contratos milionários de prestação de serviços, através de entidades nacionais e internacionais. Esta realidade começou a mudar só agora.
Mas, enfim, quão grande é o setor público brasileiro? Várias publicações demonstram que o Brasil tem baixo peso relativo do emprego público em relação à grande maioria dos países. Nosso percentual (10,7%) frente ao total de ocupados está bem atrás de um vasto leque de países, como Dinamarca (39,2%), Suécia (30,5%), Finlândia (23,4%), França (24,9%), Alemanha (14,7%), Austrália (14,4%) e até mesmo os EUA, com 14,8% de seus trabalhadores no setor público. Em todos esses países, cada um com sua particularidade, houve a estruturação de um Estado de bem-estar social com ampla oferta de serviços públicos.
Portanto, não se trata de propagar por ampliações da máquina pública, e sim construir estruturas eficientes compatíveis com as necessidades da sociedade. Os dados de crescimento e de evolução de nossa burocracia pública indicam avanços irregulares e é notório que os serviços oferecidos ainda estão distantes do padrão que a população almeja.
Assim, a resistência desse rumoroso grupo de executivos demonstra que há, sim, um comportamento de classe em suas manifestações, que deve ser respeitado, mas debatido mais a fundo. Suas posições não se apoiam em dados objetivos da realidade. O atual governo tem sido rigoroso no controle do déficit público, o qual, aliás, só não é menor, hoje, porque, anteriormente, a dívida pública tinha dado um salto espetacular, passando, por exemplo, de 30% do PIB em 1994 para 58% em 2002.
A elite dos executivos brasileiros tem demonstrado sua competência em tornar nossas empresas respeitadas por todo lugar. Esse êxito lhes pertence de direito e o mesmo foi retribuído com remunerações de primeiríssimo mundo. Mas ele não seria possível sem a qualidade da política econômica, levada a efeito pelo atual governo, e se não tivesse ocorrido uma maré favorável da economia mundial.
Temos muitos desafios pela frente. Nossa sociedade é muito injusta. A participação das grandes empresas nas ações nacionais, voltadas para o fortalecimento de nossas entidades de pesquisa, nossas academias, nossos projetos sociais e de meio ambiente ainda são deficientes e, por vezes, faz-se mais estardalhaço do que ações de fato.
Enfim, o Brasil quer mais de seus executivos do que simplesmente a crítica curta com foco na velha cantilena do corte de gastos e do orçamento equilibrado.
GUILHERME LACERDA é economista e presidente da Funcef













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