Guilherme Lacerda – A Gazeta 03/03/2010
Pela terceira vez, desde que foi criada no início dos anos 60, a Campanha da Fraternidade será ecumênica em 2010. O Conselho Nacional das Igrejas Cristãs do Brasil traz à reflexão de todos o tema "Economia e Vida". A CF propiciará uma ampla reflexão a partir da realidade concreta do país e das propostas e alternativas que serão apresentadas na campanha eleitoral deste ano.
Na prática, a teoria é outra e o povo, escaldado, deve desconfiar sempre dos belos discursos quando desacompanhados de propostas concretas e de como implementá-las. É preciso ouvir a todos, mas procurar saber quem fala, que interesses representa e de que lugar na pirâmide social fala cada um dos proponentes. No papel ninguém discorda de que a economia deve estar a serviço do ser humano; que a justiça e a solidariedade devem imperar nas questões econômicas e que o país deve combater a miséria, propugnar pela inclusão social e lutar pela igualdade.
A realidade, infelizmente, é que os discursos aparentemente semelhantes trazem ações e resultados opostos. Para mudar a vida é preciso mudança de posturas. A pobreza não é uma questão de mera fatalidade. A pobreza, a miséria, a injustiça e a desigualdade são frutos de decisões políticas e econômicas tomadas por homens e mulheres quase sempre investidos de poderes conferidos pelo voto popular e/ou indicados por alguém eleito por este soberano voto.
Nos próximos meses dois projetos antagônicos em sua gênese e finalidade estarão em debate na sociedade brasileira, embora em algumas questões eles possam parecer semelhantes. O primeiro, o do presidente Lula, que promove um resgate do país com um projeto exitoso de crescimento econômico e distribuição de renda. Fatores como o aumento real do salário mínimo, crescimento do emprego, aumento do crédito e políticas de transferência de renda fazem com que o Brasil - mantido neste caminho de melhoria dos indicadores sociais - possa erradicar a pobreza extrema em 2016.
Por outro lado, a oposição critica os gastos do Estado, defende cortes orçamentários, mas esconde da população se a tesoura vai atingir o aumento real do salário mínimo e das aposentadorias; omite se o torniquete adiará a realização de concursos públicos em todas as áreas de governo; não confessa se a economia será feita tirando dinheiro dos programas de inclusão social, como o bolsa família, que hoje beneficia milhões de brasileiros em todos os cantos do país.
O Brasil tem muitos desafios. Precisa gerar emprego e distribuir renda. Precisa expandir a economia, respeitando os pressupostos da sustentabilidade e da defesa do meio ambiente. Precisa aumentar o consumo e estimular a poupança. Precisa garantir o controle da economia e encorajar relações econômicas fraternas, estimulando uma economia familiar, solidária. Um outro mundo, certamente, só será possível com o somatório de esforços de políticos éticos e competentes com uma sociedade civil cada vez mais capacitada e organizada.
Nestes termos, é com especial prazer e atenção que vejo a Campanha da Fraternidade colocar a relevância do tema para ser debatido em todas as comunidades brasileiras. Se "não se pode servir a Deus e ao dinheiro" (Mt, 6;24), penso, o primeiro passo é fazer com que os gestores econômicos coloquem seu trabalho a serviço de um projeto que dignifique o ser humano. É o que, com modéstia e firmeza cada um de nós precisa exercitar cotidianamente.
Guilherme Lacerda é economista e presidente da Funcef.













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