Os “tombos” do PT

Praça Oito – AGazeta – 07/05/2010

O terremoto político na chapa palaciana desabou principalmente sobre o PMDB, o PDT e o PR, mas criou uma situação de perdas e ganhos para o PT.
Os possíveis ganhos: o partido pode indicar o vice do senador Renato Casagrande (PSB). A afinidade entre as duas siglas de esquerda pode dar ao PT o papel de protagonista que havia perdido para o PDT do prefeito Sérgio Vidigal, na chapa do vice-governador Ricardo Ferraço (PMDB).
E a sigla talvez assegure uma senadora, porque indicou a primeira suplente de Casagrande no Senado em 2006.
Por outro lado, nada garante de fato o vice aos petistas. E o PDT já deixou claro o apetite pela vaga, levando para o PSB a briga por espaços que havia no bloco ferracista.
Além disso, a legenda pode sacrificar sua chapa de deputados federais, como eventual compensação às duras perdas do PMDB – a da candidatura de Ferraço ao governo e do governador Paulo Hartung ao Senado.
Agora, quem saiu queimado no PT com as mudanças foi o grupo do prefeito João Coser, que comanda a sigla. Esse bloco quase rachou o partido no Estado, no esforço de levá-lo para o palanque de Ferraço ainda em meados de 2009.
Na época, Coser retirou sua candidatura ao governo para apoiar Ferraço, aparentemente cumprindo acordos com o grupo palaciano pelas duas eleições na Prefeitura de Vitória. Ele apostou todas as fichas naquela tese da “fila” para 2014, indicando o vice na chapa, para assegurar posição privilegiada na disputa, daqui a quatro anos.
Todavia, o “fico” do governador Paulo Hartung (PMDB), em março último, jogou por terra a tal tese. Como compensação, Coser quase foi alçado a candidato palaciano nas articulações para Hartung ficar no governo até o final do mandato, conforme relatos de lideranças em conversas reservadas.
O fato só não se consumou porque o prefeito Sérgio Vidigal bateu na mesa e exigiu a manutenção da candidatura ferracista. Por isso o PT teria sido desidratado na chapa diante do PDT.
Ao que parece, portanto, a cúpula petista tomou dois “tombos”. Primeiro, quando acreditou piamente na tal fila para 2014, abrindo mão de lançar Coser este ano para apoiar Ferraço. E agora, ao ver Ferraço ser retirado da disputa pela articulação que levou Casagrande para a chapa palaciana.
O grupo de Coser viu todo o esforço e todo o desgaste para apoiar Ferraço ser pedido. O estrago só não foi maior porque Casagrande e o PSB, como antigos aliados, “descem” melhor entre as bases do partido que o vice-governador.
Mas é possível que alguns setores do PT estejam mais próximos de Casagrande do que outros. Em especial os que defenderam desde o início a aliança com ele. Também há boas chances, porém, de as duas legendas dividirem os principais espaços no próximo governo, a partir desta campanha.
Por outro lado, com Casagrande a “fila” para 2014 também não existe, com também deixou de existir na chapa de Ferraço. Hoje, portanto, o princial espaço reservado ao partido é mesmo o vice de Casagrande. Mas há certa apreensão de que tal acomodação se perca em meio à instabilidade atual nas articulações. É um risco real. Para afastá-lo, o PT deveria, no mínimo, sentar na vaga e colar em Casagrande – antes que mais alguém o faça.
Lideranças do PT descartam qualquer mudança na indicação do vice do senador Renato Casagrande. A avaliação é de que o jogo não está zerado quanto ao tema, porque essa era a posição pública do partido desde 2009
Cena política
Em discurso na Assembleia Legislativa, na quarta-feira o deputado Marcelo Santos (PMDB) negava o racha na base governista. “A base está como carga de caminhão, que balanç a, balança, mas não cai”. Longe dos microfones, o líder do governo, Paulo Roberto (PMN) comentou com os colegas, em tom de brincadeira: “O caminhão balançou, os cachorros caíram lá de cima e não sabem para onde correr”.
Ameaça. Um dos mais prejudicados se o PT perder a vaga de vice é o deputado Givaldo Vieira. Há mais de um ano ele abandonou a disputa pela reeleição, e vem reacomodando suas bases para outros companheiros de partido que disputarão uma cadeira na Assembleia Legislativa.
Revide? Para algumas lideranças, o PT estaria receoso de perder o vice de Casagrande por considerar que ainda pode ser alvo de retaliações dos socialistas. Seria uma eventual resposta ao modo como o PSB foi tratado pelos petistas antes da reviravolta política.
Nem lá nem cá. Declarações da cúpula socialista sobre o tema também denotam certa ambiguidade. Dizem que o espaço do PT deve ser reconhecido, mas também não descartam as demandas dos demais partidos.
Contraponto. Única liderança do PT a defender a aliança com Casagrande, na reunião sobre táticas eleitorais, em fevereiro, o militante histórico Francisco Calmon discorda da avaliação sobre o PT publicada na coluna de domingo. Para ele, o PT saiu maior do terremoto político, e não igual. Além da vaga de vice e de uma possível senadora, a legenda pode compartilhar da coordenação do processo, e pode ter um espaço maior num possível governo Casagrande. E ainda pode ser privilegiado na montagem das chapas de deputados.

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