O PMDB e a mitologia

  O Movimento Democrático Brasileiro (obrigado pela ditadura incluiu o P de partido) foi a maior frente institucional de luta contra a ditadura. Nele aliaram-se os melhores quadros unidos pelo ideal de restaurar a democracia. Como vivíamos sob uma ditadura, a bandeira da democracia fora suficiente para manter sob a mesma legenda um amplo arco ideológico.



Em 1985 um grupo de fundadores do  PT no RJ, do qual fiz parte, resolve engrossar as fileiras do PMDB por compreender que estaria nele a extraordinária missão de conduzir a transição da tirania para a democracia. Ironia da história, coube a um político da própria ditadura assumir a presidência do Brasil.  Sarney não tinha respaldo nas forças democráticas e era tido por muitos dos seus ex-correligionários, em especial pelo último tirano, gal. Figueiredo, como traidor.

Ulysses Guimarães, presidente do PMDB e da Câmara, consciente da força do partido e da fragilidade de Sarney, assume o timão dessa travessia. Sarney toma posse, e uma lufada nos varre a capacidade de pensar criticamente; e, tomado pela sede de poder, todo o PMDB, inclusive o nosso diretório, composto por alguns ex-guerrilheiros, fica debruçado sob o organograma da administração federal selecionando os nomes a indicar para o presidente Sarney, cuja única alternativa era nomear. Assim começava a deixar de existir a grande frente democrática para transformar-se no partido de maior voracidade por cargos; era o fisiologismo institucionalizado e racionalmente justificado, pois, afinal, os ocupantes anteriores eram colaboradores do despotismo.

Travessia promiscuamente realizada, sem a necessária ruptura com o passado e, notadamente, sem a construção de um projeto de nação, fica o PMDB com o maior espraiamento nacional, porém sem “approach".

O fisiologismo passou a fazer parte do seu DNA e, via de efeito, seus quadros, por natureza, ofendem a lei  do pais. Exemplo disso assisti na PMV quando assumiu um representante do PMDB e em sua primeira reunião com os gerentes  da secretaria que dirigia disse que havia aceitado o convite mediante duas condições: a primeira, a de levar a irmã para trabalhar junto; e a segunda, a de laborar apenas três dias por semana porque necessitava dos demais para seus negócios particulares.

"Desde o f m do regime militar, o PMDB assemelha se à famosa esfinge que perguntava: decifra me ou te devoro. No quadro político é impossível ter maioria no Congresso sem os peemedebistas, mas governar com o PMDB é tão difícil quanto. (Fernando Abrucio, Época,02/2008~.

Sendo uma federação de caciques regionais, não há como decifrar a legenda, e, no plano nacional, os governos passados foram devorados e o atual vai sendo, ora pelas traições, ora pelas indicações de corruptor a cargos de confiança.

Não somente se assemelhe à esfinge, mas também a Hidra, aquele cobra aquática que, sempre que Hércules lhe decepava uma cabeça, duas cresciam em seu lugar- e, como se isso não fosse suficiente, Hera (desforra) enviou um caranguejo gigante (Sarney) para morder o pé de Hércules. Como não temos Hércules (felizmente!), o desafio para o futuro é como não ser devorado e nem nutrir a Hidra. Desafio que vale, sobretudo, para os peemedebistas comprometidos com o bem do Brasil.

Francisco Celso Calmon Ferreira da Silva é administrador, advogado e escritor, filiado ao PT

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